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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ACHANDO UM PIRAJUENSE...

'Sapeando' pelo google vendo blogs de pirajuenses, tive a sorte de encontrar o belo e querido Cassiano por lá - aliás, quanto tempo não, saudades - e fiquei encantanda com um texto dele : http://let-me-tell-you-a-secret.blogspot.com - ainda não li os outros - por isso resolvi colocá-lo nesse blog.

Coisas que não existem.
Imagine agora uma reunião hipotética de personagens de estórias infantis. Uma mesa de reuniões. E Papai Noel presidindo a sessão. Uma verdadeira mesa redonda de conto de fadas. Os participantes começam a chegar. Um a um. Branca de Neve entrou tímida. Cabeça baixa. Numa das mãos uma caixinha amarela com tarja preta. Antidepressivos. Sentou-se numa das pontas da mesa e aguardou. Os ursinhos carinhosos entraram correndo, cantando e se jogando uns sobre os outros. Bêbados, todos eles. Alice chegou antes do coelho. Estava com as roupas rasgadas e o corpo coberto por hematomas. Sentou-se num canto da sala, longe de todos. Fechou os olhos e esperou. Chapeuzinho Vermelho entrou de mãos dadas com o Lobo Mau e ambos tinham nos dedos uma aliança de compromisso. Tascou um beijo no focinho do animal e anunciou o casamento. Pedrinho, Narizinho e Emília chegaram inesperadamente, saídos de uma audiência jurídica. Tinham sido expulsos do antigo Sítio do Pica Pau Amarelo, que agora era mais um empreendimento do riquíssimo Marcelino Pão e Vinho.
Depois deles vieram outros e logo a sala estava repleta de personagens imaginários. Papai Noel, que agora usava piercings e cabeleira moicana, bateu levemente no tampo da mesa, pedindo atenção e o alvoroço foi aos poucos dando lugar a um silêncio sepulcral. A reunião fora marcada com antecedência à meia-noite; só assim todos poderiam participar. Eles sabiam o motivo da reunião. Por um tempo, povoaram o imaginário popular infantil; foram heróis e heroínas de gerações sem conta. Agora estavam ali, vivenciando problemas de pessoas comuns. Eles eram pessoas comuns! E sequer tinham consistência. Estavam isolados e, pouco a pouco, eram tragados pelo limbo do esquecimento. O debate começou e Papai Noel levantou as questões principais. Perguntou o porquê de tudo aquilo. A fera arriscou e disse tratar-se de uma tal tecnologia. Maria, irmã de João, corrigiu e tentou explicar que os avanços da era moderna fizeram com que as estórias e seus personagens se tornassem tediosos demais. E não havia migalhas de pão no caminho.
A Bruxa Má do Leste disse que tudo era culpa das crianças, que preferiam ficar sentadas diante do computador, apertando teclas sem parar. Os livros deixariam de existir a qualquer momento. Todos sabiam o que estava acontecendo, mas ninguém fazia nada para mudar. Pinóquio gritou que os adultos deveriam ser entregues às autoridades literárias e foi aplaudido por cento e um cães dálmatas.
Alguns participantes começaram a se exaltar pelo fato de ainda estarem ali. Perdidos entre traças e esquecimentos. O burburinho foi ficando cada vez alto e alguns chegaram a se levantar, brandindo dedos e patas em defesa de suas carochinhas. De um salto, o Gato de Botas surgiu sobre o tampo da mesa e miou. O chiado era tão baixo que seria inaudível, caso a palavra não tivesse reverberado por todos os ouvidos, de uma só vez e a um só tempo, como uma ordem: Literatura.Todos silenciaram e até o gato pareceu emudecer-se de repente. Que palavra era aquela capaz de abrandar tantos corações imaginários? Eles eram literatura? Mas estavam sendo esquecidos e a literatura era universal...
De repente, a porta da sala de reuniões se abriu e um menino franzino entrou, arrastando uma perna machucada e o braço numa tipóia. Não abriu a boca. Como se seus pensamentos pudessem se transformar em palavras. “Eu sou a Literatura!”, bradou ele em pensamento como só numa boa estória infantil poderia acontecer. Havia, ainda, perguntas sem resposta. Por que ninguém perguntava o motivo do sapatinho de cristal da Cinderela ser a única coisa que não se transformara em abóbora depois da meia noite? Qual a fórmula da poção que os ursinhos Gummy tomavam que os deixava tão eletrizados? Por que o Vingador tinha só um chifre? Ninguém sabia!
O menino jogou as muletas e, para espanto de todos, caminhou até a mesa. Há muito tempo atrás, aquele mesmo garoto correra de trás de uma montanha gritando a todos que um Lobo o perseguia. Os moradores da província não acreditaram nos pedidos de socorro do rapazinho. Foi devorado pelo animal. Isso era vida real. Quando um dejà vú lhe permitiu uma nova possibilidade, ele voltou correndo de trás da montanha, gritando que Lobo ainda o perseguia. Imediatamente, todos o socorreram. Mas atrás da montanha não havia Lobo algum. Mentirinha. Aquilo era Literatura.
Todos sorriram com sua boa moral. Afinal, quem não acreditava em Literatura ou no Lobo da montanha se humanizava. E quando isso acontecia, todo o resto se tornava real demais.E, então, todos viveram felizes para sempre.

QUERIDA PIRAJU

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